"Grande Otelo - 16 anos de saudades" - 27.11.2009

A PRODIGITAL homenageia o ator Grande Otelo, no dia seguinte
que completou os 16 anos de sua morte

16 anos da morte de Grande Otelo

Ontem, dia 26 de novembro, fez 16 anos que o artista Sebastião Bernardes de Souza Prata, mais conhecido no mundo artístico como Grande Otelo, faleceu após descer no Aeroporto Charles de Gaule, em Paris, onde seria homenageado.

Grande Otelo nasceu no dia 18 de outubro de 1915 na pequena cidade de Uberlândia (ou Uberabinha), Triângulo Mineiro. Fugiu com a Companhia de Comédia e Variedades Sarah Bernhardt para São Paulo, depois foi para o Rio de Janeiro.
Em São Paulo, foi adotado pela família Queiroz e estudou no Colégio Liceu Coração de Jesus.
A primeira peça estrelada pelo ator foi na sua cidade natal, com menos de 10 anos, em uma peça do Circo Serrano.

O início da sua carreira na capital paulista não foi fácil. Há uma discórdia entre a data da estréia de Grande Otelo em São Paulo. Alguns dizem que foi na peça “O Mártir do Calvário”, do diretor Eduardo Garrido, como um dos diabinhos que aparecia quando Judas Escariote se enforcava; outros falam que foi cantando músicas e recitando, em fins de 1924 e há algumas pessoas, como J. Galante de Souza, que afirmam que ele estreou no Teatro Politeama, mas o mais provável é que sua primeira peça tenha sido “Nhá Moça”, em 1925.

Com a Companhia Jardel Jércolis viajou para Porto Alegre, Montevidéu e Buenos Aires. Após a excursão, Jardel levou o pequeno artista para o Rio de Janeiro. No dia 31 de maio de 1935, estréia no Teatro João Caetano o espetáculo Gol!, de Jardel Jércolis e Luís Iglesias. No elenco feras como Juan Daniel, Lódica Silva, Ema D`Ávila, Margot Louro e Nair Farias.

No Rio de Janeiro dormiu em bancos de praça, hospedaria de mil-réis e até em pensão de corda (estabelecimento perto da Central do Brasil). Por sorte, o produtor americano Wallace Dolney, que o conhecia das filmagens de Noites Cariocas, o convidou para atuar em João Ninguém, um filme com roteiro de João de Barros e direção de Mesquitinha.

Em 1942 Orson Welles (famoso por dirigir o filme "Cidadão Kane"), veio ao Brasil filmar "It´s All True". Conheceu Grande Otelo na porta do Cassino da Urca. Convidou o ator para as filmagens, mas o filme ficou inacabado.

Trabalho era o que não faltava para o ator. Ele trabalhava no Cassino da Urca, participava do programa “Coisas do Arco da Velha”, da Rádio Nacional e atuava no cinema. A Atlântida Cinematográfica nasceu em 1943 e seu primeiro filme foi “Moleque Tião”, com Grande Otelo no papel principal.

A partir daí, Grande Otelo não parou de fazer filmes. Em 1950, uma tragédia abateu a vida do artista. Um dia antes de filmar uma cena de “Carnaval no Fogo”, sua primeira mulher, Lúcia Maria, matou o enteado de Otelo e se suicidou. Diante disso, ele tomou uma pnga, um café sem açúcar e foi filmar. “Passei muito tempo sem ver esse filme, por que achava que a bebedeira batia na tela”, explicava o ator.

No cinema, teatro ou televisão o ator sabia improvisar. Por exemplo: na peça “O Homem de La Mancha” ele soltou um caco que fez o teatro aplaudi-lo de pé. Em dado momento da peça, o ator desceu do palco e foi para a platéia. De repente, ele se viu ao lado de dois espectadores ilustres, o economista Celso Furtado e o escritor Antônio Calado. Olhou para os dois seriamente e dirigiu-se para o público:
- Quer dizer, além de  furtado, ainda sou obrigado a ficar calado?

Já na peça “Vivaldino, Criado de Dois Patrões (Arlequim)”, quem conta é Luís Felipe de Lima, filho do ator Luís de Lima, que costumava acompanhar o pai em algumas apresentações e ficava espiando da coxia. “Gostava muito de um monólogo que Otelo fazia (...) Certo dia, na hora do monólogo, fui arrastando sem perceber a cadeirinha para frente. Nem me dei conta e já estava no palco, à vista do público. Percebendo a figura de uma criança sentada em cena, alguns começaram a me apontar, e Otelo, sem pestanejar, resolveu tirar partido da situação: me arrastou para o meio do palco e começou a improvisar comigo, perguntando de onde eu tinha saído, o que estava fazendo ali, se não seria espião de um dos patrões. Antes que eu ameaçasse gaguejar qualquer coisa, ele emendava em outra fala. Deu certo! O público riu, aplaudiu, e logo Otelo me conduziu de volta à coxia, onde meu pai me esperava para dar um esporro entrecortado de risos”.

Artista versátil como era, Grande Otelo foi, também, cantor, compositor e poeta. Com seu parceiro Herivelto Martins escreveu as músicas  Praça Onze, Couro de Gato, Carnaval com quem, dentre outros sucessos.

Em 1969 estrelou o filme "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade, baseado no livro homônimo de Mário de Andrade. Segundo Paulo José (colega de Grande Otelo no filme), o diretor Joaquim Pedro escolheu, primeiro, Otelo, depois o resto do elenco.

Atuou em programas humorísticos da Rede Globo, como Escolinha do Professor Raimundo e Chico City. No início de 1993, deixou a Escolinha, pois esta lhe tomara muito tempo. Na TVE, apresentou o programa “Quando Conheci Teu Pai”, um programa em que Otelo tinha muito mais o que falar do que os entrevistados – e falava.   

Viajou para Brasília para lançar o livro “Bom Dia, Manhã” e, no dia 25 de novembro de 1993, embarcava para Paris, de onde iria para Nantes, participar do Festival de Cinema dos Três Continentes, onde seria homenageado.

Desceu no Aeroporto Charles de Gaule e, quando se dirigia para pegar a bagagem, desmaiou ao descer da escada rolante. Uma passageira, médica, tentou reanimá-lo, fazendo massagem cardíaca e respiração boca a boca, mas ele não resistiu.  


Fonte: Livro "Grande Otelo - Uma biografia", de Sérgio Cabral